Judicial vs. Preventivo

Judicial vs. Preventivo

Judicial vs. Preventivo

SÃO PAULO – O mercado de reestruturação empresarial atinge este fechamento de 2025 em um estado de alerta máximo, mas com uma mudança de tática sem precedentes. Após um ano marcado pelo recorde de pedidos de Recuperação Judicial (RJ) — que ultrapassaram a barreira das 5 mil ocorrências, puxadas especialmente pelo estresse financeiro no agronegócio e no varejo de médio porte —, a palavra de ordem para 2026 não é mais “recuperar”, mas sim “antecipar”.

Especialistas e gestores de crise consultados apontam que o modelo tradicional de RJ está perdendo o fôlego diante de um sistema judiciário sobrecarregado e de um mercado de capitais que se tornou implacável com empresas sob supervisão judicial.

O Estigma da RJ e o “Custo de Sobrevivência”

O cenário para quem entra em 2026 sob o manto de uma Recuperação Judicial é desafiador. Com a Selic mantida em patamares restritivos para conter a inflação residual de 2025, o custo de capital para empresas “em recuperação” tornou-se proibitivo.

“Hoje, a RJ não é mais um porto seguro, mas um selo que encarece o insumo e afasta o fornecedor estratégico”, afirma o relatório de tendências para o próximo biênio. A análise mostra que, enquanto o processo judicial protege o caixa imediato através do stay period (suspensão de cobranças), ele asfixia a operação a médio prazo devido à perda de confiança comercial.

A Ascensão do “Pre-Pack” e da Reestruturação Silenciosa

Como resposta, o mercado financeiro e as bancas de advocacia empresarial consolidaram, neste final de ano, o uso das Reestruturações Extrajudiciais e dos Pre-pack Sales.

Neste modelo, que deve dominar as manchetes de 2026, a empresa não espera a insolvência se tornar pública. Ela realiza a “cirurgia” com o paciente ainda acordado:

  • Negociação em Gabinete: Planos de pagamento são fechados diretamente com os principais bancos e detentores de debêntures meses antes de qualquer anúncio oficial.

  • A “Venda Limpa”: Através dos pre-packs, unidades produtivas inteiras são vendidas a investidores de Private Equity ou competidores estratégicos. O comprador recebe o ativo livre de dívidas, e o dinheiro da venda é usado para liquidar passivos, saneando o balanço sem que a operação principal pare por um único dia.

O Novo Marco da Eficiência: A Maioria Simples

Uma das grandes forças motrizes para 2026 é a maturidade das alterações na Lei 11.101/05. Com a possibilidade de homologar acordos extrajudiciais com apenas 50% de adesão dos credores, o poder de barganha de pequenos credores dissidentes — que antes travavam reestruturações por anos — caiu drasticamente. Isso permite que empresas de setores em crise, como o automotivo e o de saúde privada, façam ajustes de rota em menos de 120 dias, contra os 2 a 5 anos que uma RJ convencional exigiria.

Setor em Foco: O Agro e a Prova de Fogo em 2026

O agronegócio será o grande laboratório dessa disputa entre o judicial e o preventivo no próximo ano. Com a quebra de margens da safra 25/26, produtores que profissionalizaram sua governança estão optando por renegociações diretas de dívidas com trading companies e bancos, evitando que o “carimbo” da recuperação judicial impeça a compra de fertilizantes e sementes para a safra seguinte.

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